Depoimento Verônica Maia

No dia 31 de dezembro de 2009, o Esquadrão da Vida completou 30 anos de idade. Para comemorar, apresentamos nossa Guerrilha do Bom Humor, que seguiu do SCS rumo à Praça Ary Pára-Raios, no CONIC. Foi muito emocionante e marcante esse dia. Muita gente querida à nossa volta, muitos amigos, muitos esquadrões, muitos desconhecidos também. A Verônica Maia, que já foi atriz do grupo, depois te ter visto a apresentação escreveu o texto que colocaremos a seguir, nos deixando muito felizes e conscientes de que estamos seguindo o  caminho certo. Valeu, Verônica!

Lá vai:

“No dia 31 de dezembro de 2009 o Esquadrão da Vida capitaneado por Maíra Oliveira saiu à rua para comemorar os 30 anos da fundação do grupo. Eles vinham cantando e tocando, afinados, pés descalços, caras pintadas, fazendo as pirâmides e formações corporais acrobáticas criadas pelo Ary Pararraios que tanto caracterizaram o grupo. A música dizia assim:

“Tem gente por aí, que anda assim tão infeliz, ganha um saco de dinheiro, vai ao trabalho e acha a vida uma bosta; acha uma bosta… Aqui no Esquadrão, a gente rala de montão, a gente planta bananeira, faz estrela, cái de bunda e até gosta, e até gosta…lá, lá, lá, lá….lá, lá, lá , lá , lá la´, lá ,la´… lá, lá, lá, lá….lá, lá, lá , lá , lá la´, lá ,la…”

O cortejo foi do Setor Comercial Sul até o Conic. Eu me transportei para a época em que eu mesma estava no Esquadrão: a presença do Ary era tão nítida que parecia que ele iria chegar a qualquer momento com sua maquiagem de arco-íris no rosto e suas calças amarelas… As formações acrobáticas eram exatamente as aquelas que fazíamos em 1985… As mesmas maneiras de armar e desarmar, porém, muito mais leves e melhor executadas pelos atores profissionais do Esquadrão de hoje.  Que maravilha poder ver a criação teatral viva! Não era uma remontagem, um vídeo, uma foto; era realmente o espírito da obra, a criação presente, como é presente uma escultura, um edifício, uma pintura.

As formas criadas pelo Ary, com suas cores, texturas e traços nunca me pareceram tão modernistas, tão brasilienses, tão integradas ao sonho e à perspectiva inovadora da Capital. O Ary dialogava intensamente com Athos Bulcão, com Oscar Niemeyer, com Lucio Costa, com Bruno Giorgi, enfim, com o movimento artístico que operacionalizou rupturas com modelos estéticos anteriores como um projeto político, que envolveu intelectuais de diferentes áreas de atuação mirando uma identidade brasileira formada por elementos tradicionais e inovadores.

Em meio dessa emoção que é ser presenteado por cores, música e corpos surgindo no espaço criando formas, eu percebi a trupe despojada que tinha como objetivo apenas alegrar, plantar sorrisos, libertar as mentes presas às preocupações mundanas; tão facilmente como se abre uma lata de sardinha… Por que não?!

A simplicidade do Esquadrão da Vida, a falta de pompas e a honestidade de chegar, atuar, finalizar e sair, sem mistificar ou supervalorizar o artista, ao contrário, revelando a humanidade do trabalhador da arte que depois vai almoçar um prato feito no restaurante ao lado, era um ato político. Assim como manter no espetáculo um espaço para a indignação, para a insubordinação.

Um momento para gritar pela proteção das matas e da humanidade e pela dignidade foi vivido também nesse cortejo de aniversário de 30 anos: Maíra pediu decência aos políticos e à população que os elegeram e lembrou que a sublevação do pai haveria de ser lembrada sempre e de inspirá-la sempre. “Quem mata a mata se mata” era o verso estampado numa flâmula laranja que acompanhava o Esquadrão.

Nesse momento, em 2010, ato político, postura política, esperança de influenciar pessoas para que elas se tornem melhores, generosidade de cantar e sorrir, fazer arte na rua e contagiar, dialogar com a concepção e a estética da cidade parecem tão distantes da realidade… Mesmo com filmagens flagrantes, confissões de corrupção escancaradas, abusos prepotentes do dinheiro público nas mais altas esferas do poder, ainda assim, os intelectuais, os pensadores, os artistas, que antes apontavam para as pessoas sensíveis os caminhos para a sobrevivência da ética, da alma e da liberdade existencial permanecem alheios.

O Ary Pararraios e o esquadrão da Vida, não. Com quase nada, rindo, cantando, destoando, inocentemente, despretensiosamente, subvertia-se a ordem. Simples como virar de cabeça para baixo, simples como três pessoas apoiadas umas nas outras para fazerem uma torre. O Esquadrão da Vida nos lembrava que o corpo, a voz, a intenção de beleza e liberdade são as nossas armas para a felicidade, a solidariedade e a existência humanista plena. Nos lembrava que não somos máquinas, não somos mulas, não somos cães adestrados, ou gatos castrados…Nós somos gente, nós somos palhaços bonitos.

Ao final, depois da chuva, literalmente, encontrei duas pipoqueiras muito arrumadinhas que eram na verdade as palhaças Matusquela/Manuela e Indiana. Estavam ali para a apresentação do Esquadrão. Nos cumprimentamos, elas me ofereceram pipoca, falaram  frases-poemas e,nde repente, Manuela saiu dizendo assim: – “ Espera aí, só um pouquinho, enquanto eu vou ali tomar coragem…”

Era a deixa para o final daquela intervenção mais que mágica que por uns instantes transformou tudo à minha volta e por dentro de mim num mundo onde tudo era poesia, era estímulo, era único e insubstituível: momentos em que nos emocionamos de felicidade e em que as lágrimas que rolam parecem regar as flores que brotam nos nossos corações.”

Verônica L. O. Maia

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