Os banheiros dos porteiros

Como nos apresentamos nas quadras residenciais de Brasília, não é muito raro procurarmos um banheiro nos blocos para fazermos xixi, caso seja necessário (sempre é, porque nos apresentamos às 17h, mas chegamos no local às 11h). Às vezes tem algum conhecido que oferece seu apartamento, mas na maioria das vezes procuramos o porteiro para pedir que ele permita que a gente use seu banheiro. É uma coisa que ninguém pensa: aonde o porteiro dos blocos guarda suas coisas, descansa, come, toma banho e etc?

Em Brasília, há vários tipos de blocos. Tem os antigos de seis andares, tem os de três andares de tijolinho, tem os mais novos e suntuosos (nem por isso mais bonitos), tem uns bem velhinhos e bem bonitinhos, tem pra todos os gostos. Mas tenho reparado muito nos banheiros dos porteiros. Em blocos mais antigos, foram construídos, junto com os blocos, um lugar (quase como um apartamento mesmo) para os porteiros morarem. Assim, muitos porteiros moram no lugar onde trabalham. Daí a gente chega e acaba tendo que entrar na casa deles para poder usar o banheiro. É meio estranho entrar naquele mundo, que é tão distante do mundo das pessoas que moram naquele mesmo prédio (eu mesma morei anos da minha vida nesses blocos e nunca reparei nisso). É um mundo à parte, que não tem a ver com o mundo classe média onde está instaurado. Fico viajando pensando nisso…

Nos blocos mais novos, o  espaço e o banheiro são ínfimos. Sujos, mal feitos… Junto com o banheiro tem um depósito de coisas: tijolos, mangueiras, latas de tinta. Muitas vezes tem um chuveiro que fica praticamente em cima da privada, que fica colada à pia. Aí eu fico me perguntando: por quê o porteiro tem que ter um banheiro tão horrendo? Por quê que quando construíram o prédio relegaram ao porteiro um espaço que está condenado à falta de higiene, pois foi construído de forma que se pudesse colocar tudo o que sobrasse naquele espaço, sem pensar sequer que alguém o utilizaria de fato? Na verdade, sem pensar nesse alguém, porque ele não é importante (pra eles, pra nós?). Juro pra vocês que toda vez que vou fazer xixi no banheiro de algum porteiro enquanto estamos montando nosso cenário, penso nessas coisas. Muitos banheiros diferentes, mas ali, naquele pequeno espaço, vejo a síntese desse nosso mundo, dividido entre ricos e pobres. Vejo a síntese do nosso país: essa barreira quase intransponível entre os que tem e os que não tem. Do lado de fora um bloco bem cuidado, bem tratado, com o porteiro pronto para abrir sua porta e cuidar daquele espaço tão bem conservado, limpo, com canteiros de flores. Mas na casa ou banheiro desse porteiro, saímos daquele mundo e vamos praticamente pra favela. E está tudo ali, na nossa casa. Na nossa cara.

E o que isso tem a ver com teatro? Pra mim, tem tudo a ver. Faço teatro para que haja, no mínimo, uma reflexão sobre o Homem e o ambiente em que vive. Pra mim, cuidar do meio ambiente passa por aí, por esse banheiro do porteiro. E o teatro é uma das maiores armas no processo de sensibilização dessa sociedade, tão calejada e embrutecida. Muitos porteiros são chatos e tem síndrome de poder, assim como síndicos e prefeitos de quadras ou administradores de cidades-satélites. Mesmo assim, a gente continua se apresentando, ainda que não sejamos respeitados ou bem vindos pelos porteiros. Ainda que não possamos colocar cartazes nas portarias para avisar aos moradores daquela quadra que estaremos por lá, com nossos espetáculos, já que os porteiros não deixaram a gente colocá-los. Ainda que tenhamos que usar seus banheiros. Ainda que não tenhamos banheiro algum para usar.

Nos encontramos nas ruas e nos blocos com ou sem banheiro!

Maíra

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