Entrevista para o Metrópoles

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Foto: Ândrea Possamai

A nossa diretora, Maíra Oliveira, está em cartaz com o monólogo “Quando o coração transborda”, que conta um pouco da história do Esquadrão da Vida, através do seu olhar e de sua relação com o pai, Ary Pára-raios, o criador do grupo. O Metrópoles fez uma entrevista com ela para a divulgação da temporada. Sergio Maggio, o entrevistador, sugeriu que a publicássemos na íntegra. Então, lá vai:

ENTREVISTA SERGIO MAGGIO

Essas lembranças que vão à cena são flashes de sua história e da trajetória de Seu Pai. Vc acha que o DF guarda bem a memória dele?

Essa é uma pergunta difícil de ser respondida, porque são vários tipos de memória, né? Em relação à coisa material, é claro que não. Quando ele estava vivo isso já era difícil – a conservação do material do Esquadrão da Vida. Imagina agora! Esse tipo de material precisa sempre de manutenção, muita coisa ainda precisa ser digitalizada, temos vídeos em super 8, fotos que não tem filmes, matérias de jornais que estão bem cuidadas, mas o papel é uma coisa difícil de se conservar… Fora figurinos, peças de cenário. Muita coisa o grupo aproveita mas aproveitaríamos melhor se tivéssemos um espaço adequado, com tudo muito bem organizado e catalogado, porque sempre é um trabalho muito grande mexer nesse acervo. O ideal seria alguém que fosse especialista em conservação e memória que pudesse estar junto com a gente pra cuidar. Tudo isso tem custos, e custos que o Esquadrão não tem tido como arcar. É difícil…

Mas com relação à memória das pessoas, a afetiva, sinto que ele – meu pai – meu está vivo na vida e no coração de muita gente aqui em Brasília. É uma coisa bonita de se viver… De qualquer forma, é claro que essa memória, que faz parte da história cultural da cidade, pode sempre ser reinventada e revisitada. Isso é importante para o fortalecimento da cidade como um lugar fértil de criação artística e cultural, que não está só atrelada à Esplanada dos Ministérios e à Praça dos Três Poderes. Existe uma geração de pessoas que ainda não teve a oportunidade de ver o Esquadrão nas ruas, uma vez que a nossa última apresentação na rua foi em 2012. Ainda assim, o “Quando o Coração Transborda” é um projeto do Esquadrão da Vida que tenta, de uma maneira menos ‘formal’ talvez, guardar e amplificar essa memória.

Na sua percepção, qual o maior legado que Ary deixou pra Brasília?

O Esquadrão da Vida. Porque com o Esquadrão, vem junto o pensamento que o envolve desde sua criação: a possibilidade de reflexão sobre o direito à cidade. O direito de vivê-la em sua plenitude, com a ocupação lúdica e poética dos seus espaços em harmonia com os seus habitantes. A Arte como um direito de todos nós, como uma possibilidade revolucionária de mudança e transformação. O libelo da Arte e do Teatro como arma democrática contra a caretice.

E dentro de tudo isso, o legado de um sem número de pessoas que se consideram parte dessa escola que é o Esquadrão da Vida. Pessoas que, às vezes mesmo sem trabalhar com teatro, seguem em um projeto de vida e de compreensão do mundo que tem a ver com a vivência libertária que é participar de um grupo de teatro como o Esquadrão da Vida.

Ary pedia paz, lutava pelo meio ambiente, pela democratização da cultura, dos espaços públicos, pela liberdade de expressão havia uns 40 anos. E hoje continuamos a clamar pelos mesmos temas. Vc sente ele como um visionário, um xamã?

Não, não o sinto como um visionário e nem como um xamã, mas como um homem que viveu o seu tempo e sua vida de forma intensa, conflituosa e apaixonada. Um homem sensível e atento às delicadezas do mundo, às potencialidades individuais do ser humano, uma pessoa especial. Não sei se ele era exatamente um xamã mas às vezes penso que ele foi um homem à frente do seu tempo, talvez por tê-lo vivido de forma visceral, generosa e contestadora.

Depois da morte dele, o Esquadrão virou um peso pra vc? A peça mostra um pouco desta crise. Como as coisas se transformaram para a leveza?

Na verdade, o Esquadrão da Vida tinha um pouco de peso pra mim quando meu pai estava vivo ainda. A crise mais pesada aconteceu no início da minha vida adulta quando passei a questionar se devia continuar trabalhando só com o meu pai e com o Esquadrão. Queria experimentar trabalhar com outras pessoas, descobrir se era aquilo mesmo, o Esquadrão, que eu queria. Quando enfim eu descobri que era isso mesmo, tudo se resolveu. Eu passei a trabalhar mais intensamente com o Esquadrão, a ponto de virar assistente de direção do meu pai e, depois de sua morte, assumir tudo do grupo, naturalmente. Daí, comecei a aceitar que meu pai era meu mestre, a pessoa que me abriu as portas do Teatro e me mostrou que eu era atriz e que, pro bem ou pro mal, essa era a minha história. Tem uma frase que eu sempre falo e que virou meu mantra (eu digo isso na peça), que é: é ruim mas é bom. Pra toda leveza há um peso, temos que achar um equilíbrio. Se o peso fosse maior, eu certamente não ia querer estar no lugar em que estou hoje, responsável pelo Esquadrão.

Como anda o acervo de Ary? O estado de conservação?

As coisas estão entre a minha casa e a da Caísa, que foi atriz do grupo. Moro sozinha em um apartamento alugado de dois quartos. Um dos quartos é o quarto do Esquadrão, mas na verdade, em praticamente todos os cantos dela tem coisas dos Esquadrão, porque não cabem só no quarto. Muitas coisas eu uso no “Quando o coração Transborda”, mas não chega a ser nem a metade do que temos: instrumentos, cenários, quadros, documentos, vídeos (alguns já digitalizados, outros não), fotos, jornais e revistas, um bumba meu boi que o Seu Teodoro nos deu, lonas, malas, chapéus e um monte de outras coisas. Em algumas coisas estou sempre mexendo e remexendo, arrumando… No momento, tem uma estante cheia de documentos iconográficos, cartazes de intervenções, fotos e outras coisas, que tem uma prateleira que caiu e eu ainda não consegui arrumar, porque não tenho dinheiro pra isso. Então tudo está caindo, uma coisa em cima da outra. Muito pó, muitas coisas que precisam ser arrumadas.

Na casa da Caísa, tá tudo no porão. Tenho uma angústia danada por não ir lá pra ver as coisas, parece que algo me imobiliza, não sei. Já faz mais de dois anos que não apareço por lá para ver nosso material, que é um material que não utilizamos todo o tempo e que não sei se jogo fora. Porque na verdade, eu posso até arrumar, passar lá, mas sempre vou ter essa questão de como é que eu guardo essas coisas. Me incomoda muito que tudo isso esteja longe de mim e do grupo, em uma outra casa, que não é nossa. Mesmo que a Caísa sempre me diga que não tem problema, sabe?

E tem material que eu posso não estar usando agora, mas que tenho certeza que posso reutilizar de alguma forma em algum outro momento. Tem muitos jornais VivAlternativa, que era um jornal produzido pelo meu pai, tem o cenário do “Filhote do filhote de Elefante” (primeira peça do Esquadrão que dirigi depois de sua morte) e um monte de outras coisas. Porque são muitas coisas pra cuidar e acaba que vou dando mais atenção para as peças e para o fazer, adoraria ter alguém em quem confiasse e que nos acompanhasse sempre, que fizesse a organização de tudo, catalogasse, registrasse… Mas não como uma coisa de museu, e sim como organização de um material que usamos de várias maneiras, como pesquisa para novos trabalhos, para estudos e para, é claro, que as pessoas tivessem mais acesso à essa história/memória de Brasília.

Essa peça mexe com o imaginário de quem assiste, fala de sonhos, missões, desencontros e possibilidades. Qual o sentido dela pra vc?

Nossa! Que pergunta difícil de ser respondida! Bom, a primeira coisa que me veio à cabeça para responder a essa pergunta são esses versos do poema “O Guardador de Rebanhos”, do Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa):

“Porque o único sentido oculto das coisas

É elas não terem sentido oculto nenhum,

É mais estranho do que todas as estranhezas

E do que os sonhos de todos os poetas

E os pensamentos de todos os filósofos,

Que as coisas sejam realmente o que parecem ser

E não haja nada que compreender.

 

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —

As coisas não têm significação: têm existência.

As coisas são o único sentido oculto das coisas.”

Sei que essa resposta talvez não seja satisfatória (do ponto de vista de uma entrevista para divulgar a peça) e nem quero dar uma de intelectual. Mas o sentido da peça está na própria peça, para mim. No meu amor pelo Teatro e na visão, compreendida pela minha vida com o Esquadrão, de que a Arte é revolucionária. E de que, como meu pai escreveu em um bilhete pra mim: “A Arte é nosso Deus e o Teatro nosso sacerdote. Nosso purgatório é nosso Olimpo.” Faço porque preciso fazer. Talvez seja esse o maior sentido.

Explica um pouco a ideia de “todo dia era dia de índio” nas redes?

Toda vez que estou junto com índios, seja em protestos, seja me apresentando em uma aldeia, seja convivendo de alguma outra forma – na cidade, na universidade, na Câmara dos Deputados – minha cabeça fica à mil. Um dos meus maiores ídolos foi o Darcy Ribeiro, me identificava e me identifico muito com a forma que ele enxergava o Brasil e a construção da nossa identidade, tão rica e ao mesmo tempo tão complexa.

Todo dia era dia de índio, para mim, fala sobre toda essa complexidade da sociedade brasileira e, em última instância, de como nos vemos no mundo. Fala sobre como construímos essa identidade atropelando outras identidades. Sobre o deslocamento da vida integrada com a natureza e nosso meio ambiente, para uma vida onde o verbo ter é o mais importante. Fala sobre como olhamos o outro e o exercício diário de tolerância para a convivência harmoniosa com esse outro, mesmo entendendo que isso é muito difícil. Todo dia era dia de índio, me lembra que eu sou índio, que somos todos índios, negros, amarelos, loiros, ruivos. Me provoca no sentido de despertar – em mim em primeiro lugar – a empatia pelo outro. Estamos precisando muito disso: exercitar nossa empatia, nossa compaixão.

E acho pouco falar só índio, na verdade. Porque são tantos índios! Com tantas línguas diferentes, tantos costumes e culturas, tantas diferenças, tantas particularidades. E é tão lindo que eles estejam resistindo entre nós e que estejam dentro de nós! E ao mesmo tempo, tão doloroso que é esse não-lugar que estamos impondo a eles, desde 1500. E ao mesmo tempo que digo estamos não acho legal, porque eu também sou índia. E ao mesmo tempo, não sou. Então resumindo tudo, tudo mesmo, até a crise política atual, com esse golpe. Até o estupro de uma menina por 30 homens. Até isso me faz lembrar, diariamente, que todo dia era dia de índio. Minha pequena intervenção poética, política e pessoal nas redes sociais há mais de três anos.”

A matéria saiu assim:

Maíra Oliveira, o coração onde mora o palhaço Ary-Pára Raios

E, para assistir o “Quando o coração transborda”, tem que seguir essas coordenadas:

SERVIÇO

DE 04/06 a 26/06

Sábado e domingo, sempre às 20h.

Local: Sala Conchita de Moraes

Endereço: Setor de Diversões Sul, Prédio FBT (Teatro Dulcina) – CONIC

Ingressos R$ 30 (inteira) e R$15 (meia)

Classificação etária: 14 anos

CONTATO 

Maíra Oliveira – 8409.4694

Tatiana Carvalhedo (produção) – 8127.8667

 

 

 

 

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